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Economia se recupera no final de 2009

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PIB FICOU ESTAGNADO NO ANO PASSADO, COM QUEDA DE 0,2%, MAS AVANÇOU 2% NO QUARTO TRIMESTRE NA COMPARAÇÃO 
 

A crise global restringiu investimentos, reduziu exportações, abalou a indústria e desacelerou o consumo em 2009. A turbulência empurrou a economia brasileira para perto da estagnação: o Produto Interno Bruto (a medida da produção e da renda nacional) registrou variação negativa de 0,2% no ano passado, a primeira contração desde 1992.

 

 


Naquele ano, o país vivia ainda sob a hiperinflação de mais de 20% ao mês e se via às voltas com o impeachment do então presidente Fernando Collor de Mello -evitado pela renúncia do mandatário.

Embora tenha vindo com sinal negativo, o resultado de 2009 é encarado mais como de interrupção do crescimento do que de encolhimento, pelo IBGE. "Variações entre mais meio ponto e menos meio ponto são equivalentes a zero", afirmou Rebeca Palis, gerente de Contas Nacionais do IBGE, ao anunciar o PIB.

A avaliação é compartilhada por analistas. "O fato econômico relevante é que houve estagnação. Essencialmente, a economia em 2009 foi igual à de 2008, ou seja, um ano perdido", disse o economista Armando Castelar, analista da Gávea Investimentos.

Desde o fim do ano passado, o cenário mudou: a economia está aquecida e cresce atualmente num ritmo entre 5% e 6% anuais, segundo especialistas. "Esse crescimento para 2010 está dado até por conta da fraca base de comparação", avaliou Sérgio Vale, economista da MB Associados.
Já no quarto trimestre, o PIB avançou 2% na comparação livre de influências sazonais com o terceiro trimestre. Ante o mesmo período de 2009, o crescimento foi de 4,3%.

Para este ano, está prevista uma forte recuperação da indústria -que teve queda recorde de 5,5% em 2009, a maior da nova série do PIB, iniciada em 1996- e dos investimentos -com retração de 9,9%, também a mais expressiva da nova série.

Olhando para o retrovisor, a economia padeceu em 2009 com a redução extrema do crédito, a fraca demanda mundial e o menor otimismo de empresários -e de consumidores, em menor escala.

Consumo

Medidas como a desoneração de tributos em artigos como carros, geladeiras, fogões e móveis e a expansão do crédito em bancos públicos conseguiram atenuar esses efeitos e impulsionar o consumo das famílias -que cresceu 4,1%, o menor nível desde 2004 (3,8%).

Foi esse consumo, mesmo abaixo da média recente, que impediu uma freada mais forte da economia. O governo também ampliou gastos como forma de fazer política anticíclica: seu consumo aumentou 3,7% em 2009.

Sob a ótica da produção, o setor de serviços, menos sujeito às crises e embalado pelo consumo interno, avançou 2,6% em 2009 e atenuou a queda do PIB.

A crise travou também o comércio exterior do país: as exportações recuaram 10,3%. As importações cederam com mais intensidade: 11,4%. Desse modo, o país teve a primeira contribuição positiva do setor externo para a economia desde 2005, com acréscimo de 0,1 ponto percentual.

Indústria e investimentos

Já a queda da indústria foi tão forte que o setor perdeu peso no PIB: de 27,3% em 2008 para 25,4% em 2009. O mesmo ocorreu com os investimentos -cuja taxa como proporção do PIB cedeu de 18,7% em 2008 para 16,7% em 2009.


No sentido inverso, serviços e consumo das famílias ganharam participação na economia do país.
Para 2010, a indústria e os investimentos devem liderar o crescimento, em boa medida graças à enfraquecida base de comparação.

Nem mesmo a prevista alta da taxa básica de juros, dizem especialistas, vai abortar o crescimento deste ano -seus efeitos, preveem, serão mais notados em 2011.

"O consumo ainda deve permanecer forte, mas não vai sustentar o nível do último trimestre, quando tivemos antecipação de consumo por conta da expectativa do fim dos incentivos fiscais.

Permanece elevado, porém, porque vem sustentado por uma classe média emergente, que quer consumir e que não teve a renda abalada pela crise", avalia Bernardo Wjuniski, economista da Tendências Consultoria.

  Fonte: Folha de São Paulo
 

Opinião - A economia brasileira em 2009 

Se houve uma queda no vazio durante 6 meses, a retomada a partir do 2º trimestre de 2009 foi ainda mais rápida 
 *LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS 
  
A DIVULGAÇÃO do PIB de 2009 pelo IBGE nos permite avaliar de forma mais completa o comportamento da economia durante a cise mundial. Além disso, fornece boas pistas para projetarmos os resultados do último ano do mandato do presidente Lula.

Vamos começar lembrando o passado. O ano se iniciou sob o impacto de uma contração brutal do PIB no último trimestre do ano anterior.

Entre outubro e dezembro de 2008, tivemos uma redução de 14% anuais -ou 3,5% ante o trimestre anterior- na geração de riquezas no Brasil. Não por outra razão vivíamos -sociedade e governo- um pesadelo para o qual não estávamos preparados. Eu mesmo -calejado que sou por mais de 40 anos de atividade profissional- fiquei muito assustado e pessimista com o futuro. Recuperei um pouco de meu sangue-frio ao me lembrar de uma frase dita por um grande e sábio amigo meu: "Não aposte contra o capitalismo, pois você vai quebrar a cara".

Nos primeiros três meses de 2009, o pânico continuou e o PIB se contraiu a uma taxa anualizada de 3,6%. Embora bem menor, continuava a retração da economia. Nos seis meses decorridos desde a quebra do banco Lehman Brothers, a queda do PIB brasileiro havia chegado a uma taxa anualizada de mais de 11%. Se usarmos o consumidor como referência sobre o comportamento do brasileiro naqueles terríveis dias, vamos encontrar -embora mitigado- o mesmo cenário de crise. As vendas do varejo, que vinham crescendo a uma taxa anual de 10%, passaram a se contrair a uma taxa anual de quase 5% ao ano.

No caso dos empresários, o susto foi ainda maior. A redução dos gastos com máquinas e equipamentos foi de mais de 40% anualizados entre o terceiro trimestre de 2008 e os primeiros três meses de 2009. O aumento rápido dos estoques e a redução do crédito bancário levaram a uma quase paralisação da produção em muitos setores e à demissão de funcionários.

Mas os números do IBGE deixam claro que, se houve uma queda no vazio durante o período de seis meses, a recuperação a partir do segundo trimestre foi ainda mais rápida.

As vendas ao varejo voltaram a crescer a taxas da ordem de 12% ao ano a partir de setembro e hoje já são em valor mais de 5% superiores ao que prevalecia antes da crise.

Também está nas estatísticas do PIB a prova de que os empresários retomaram de maneira bem mais lenta seus investimentos. A partir do segundo semestre do ano passado, os gastos com investimentos cresceram rapidamente, mas ainda estão bem abaixo do nível que prevalecia antes da crise. Se considerarmos a demanda privada total, que inclui os gastos com consumo e exportações, os números do IBGE mostram que estávamos no fim de 2009 exatamente no nível anterior à crise.

Por fim, o papel das importações continua a crescer na matriz de oferta de bens no Brasil, o que contribui para ancorar a inflação no segmento de bens industriais e intermediários em um momento de demanda acelerada, ainda que apenas temporariamente.

Para 2010, a equipe de economistas da Quest prevê crescimento de 6%, com inflação crescente e superior ao centro da meta. Nos próximos meses, o Banco Central terá a difícil tarefa de controlá-la sem destruir o otimismo de nossos empresários.

 
 *LUIZ CARLOS MENDONÇA DE BARROS , 67, engenheiro e economista, é economista-chefe da Quest Investimentos. Foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações (governo Fernando Henrique Cardoso).

Fonte: Folha de São Paulo

 

 
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